Potosí, o tesouro prateado da Bolívia

Ir ou não ir para Potosí?!?!

Na hora de montar o roteiro, entre inúmeras pesquisas, leitura de blogs e tudo mais, uma dúvida persistia: ir ou não ir até Potosí?

Depois de atravessar o Salar do Uyuni, Sucre seria uma parada certa, mas entre Sucre e Uyuni havia Potosí. Pesquisei bastante sobre a cidade, muita gente falando que não valia a parada, mas por outro lado havia um pessoal falando que valia passar 1 ou 2 dias lá… Minha maior vontade de conhecer Potosí vinha graças ao livro “As Veias Abertas da América Latina”, onde Eduardo Galeano usou a cidade como um dos maiores exemplos da exploração espanhola no nosso continente… Coloquei isso na balança e decidi passar 3 dias em Potosí. Tudo que posso dizer é: ainda bem que segui meus instintos.

Potosí, o Cerro Rico e a Exploração Espanhola

Potosí era a cidade mais rica das Américas na época da colônia graças às frutíferas minas de prata, chegou a ter 170 mil habitantes, mais do que Rio ou Madrid na época. No século XVII metade de toda a prata que circulava no mundo tinha saído de Potosi, diversas lendas surgiram sobre esse período, há quem diga que as ruas da cidade eram cobertas de prata ou mesmo que usando toda a prata que havia na cidade daria para construir uma ponte ligando Potosí a Madrid.

A cidade é tão emblemática que o termo “Vale um Potosi” virou uma referência para algo que valia bastante, inclusive o termo é usado no livro “Dom Quixote”

O Cerro Rico era o epicentro de toda essa efervescência econômica, era desse morro ao lado da cidade de Potosí que saia toda a prata que era usada para cunhar moedas para a Espanha (falamos sobre isso mais pra frente). Toda essa riqueza trouxe prosperidade e atraiu pessoas importantes para a cidade, conseguimos observar isso facilmente caminhando pelas ruas ou visitando as igrejas da cidade, muitos casarões do período colonial resistem de pé, apesar da falta de manutenção, a riqueza de detalhes das igrejas reforça a importância que essa cidade tinha para a coroa espanhola.

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Cerro Rico ao fundo

No entanto, claro que tirar prata das minas não era um trabalho fácil e muita mão de obra era requisitada, aqui alguns historiadores e pesquisadores trazem versões diferentes sobre as condições de trabalho no processo de mineração e cunha das moedas de prata. O fato é que os trabalhadores envolvidos nesse processo não eram escravos, aos moldes de escravidão que tínhamos no Brasil, mas viviam uma condição análoga a escravidão. Eles recebiam pelo seu trabalho, mas não era um valor justo, trabalhavam muitas horas e em condições muito degradantes, estimasse que mais de 6 milhões de nativos e negros morreram em decorrência das condições degradantes de trabalho nas minas do Cerro Rico.

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A prata começa a acabar no século XIX e aí a cidade começa a mudar. As pessoas começam a partir, a instabilidade política toma conta, em seguida acontece a Independência da Bolívia, o povo boliviano não conseguiu usufruir da prata de sua terra, restou a crise política e social causada pela exploração.

O que fazer em Potosi?

O período colonial recheado de prata deixou uma herança cultural rica em Potosi, são belíssimas igrejas, conventos e museus com muita história para contar.

Um bom lugar para começar é a Praça 10 de Noviembre, que é basicamente a praça principal da cidade, que leva esse nome em homenagem a data que os potosinos se rebelaram contra o governo espanhol, por ali você vai encontrar também alguns pontos que valem a visita, como a Catedral Metropolitana e o Obelisco Potosi.

Obelisco de Potosi
Obelisco de Potosi e Catedral a noite

A Igreja de San Francisco também é próximo a praça Praça 10 de Noviembre e encanta logo pela fachada sua fachada toda de pedra. Por ali também encontramos o Mercado Central, que ao menos para mim é sempre um ponto de interesse nas cidades, ali encontramos as frutas típicas, locais barganhando com os comerciantes e sempre tem uma refeição barata, para os mais corajosos.

Igreja de São Francisco
Igreja de São Francisco

 

Conhecendo as minas de prata

Um dos tour mais famosos de Potosi é para conhecer as minas de prata do Cerro Rico, na realidade  hoje em dia nem são mais minas de prata, senão de outros minérios como cobalto. O tour permite que você passeie pelas minas enquanto os mineradores trabalham, é um passeio bastante procurado.

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Eu optei por não fazer esse passeio, as condições de trabalho nas minas ainda são muito críticas, muitas pessoas trabalham sem os devidos materiais de segurança e o contato constante com o minério ali produzido causa sérios danos a saúde, definitivamente esse não é o tipo de experiência que procuro em minhas viagens. No vídeo abaixo eu falo um pouco mais sobre isso:

O dia em que cunhei minha própria moeda de prata

Um dos passeios mais legais que você vai encontrar em Potosi é o museu Casa Nacional de La Moneda, ou a fábrica de moedas de Potosi. O museu é muito bem conservado e a visita é guiada, e por isso riquíssima em aprendizado, o prédio do museu é onde funcionava a antiga casa da moeda de Potosi, onde toda a prata que saia do Cerro Rico era transformada em moeda para ser enviada para a Espanha. Durante os anos o processo de cunha da moeda passou por algumas evoluções, e nesse museu você consegue ver isso muito claramente. Aqui também aprendemos sobre algumas lendas que envolvem a criação do símbolo de “$” e o envio das moedas para a Europa. Um dado interessante é que durante o período colonial Potosi produzia grande parte das moedas de prata que os espanhóis usavam como dinheiro, hoje em dia a Bolívia não consegue produzir nem seu próprio dinheiro, as moedas são sim produzidas na Bolívia, mas as notas de Bolivianos (moeda local) são fabricadas no Canadá e na França.

No final do tour você pode comprar uma verdadeira moeda de Potosí e cunha-la você mesmo com os símbolos que escolher, o valor da atividade varia de 25 a 100 bolivianos, dependendo do tamanho e material da moeda, mas com certeza é uma lembrança única e uma experiência diferente. Abaixo um vídeo do momento que cunhei minha moeda, que me acompanha até hoje como um amuleto.

Onde se hospedar em Potosí?

Um dos melhores lugares para ficar é próximo a Praça 10 de Noviembre, ali você está próximo das principais atrações, boas opções de restaurante e dos táxis que são o principal meio de locomoção para turistas dentro da cidade. O transporte público é um pouco confuso e desconfortável e como os táxis são bem baratos, vale a pena. Mas lembre-se sempre de acertar o preço com o motorista antes, afinal não tem taxímetro por aqui.

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O que eu achei de Potosí?

Potosí foi a minha primeira “vivência” de Bolívia, assim nua e crua. Eu estava vindo de San Pedro do Atacama no Chile, passeio pelo Deserto do Uyuni e ali já pude ver que as coisas na Bolívia eram bem diferentes do Chile, em Potosí isso apenas se confirmou. O nível de conforto é menor, o transporte entre cidades e dentro das cidades é um pouco mais confuso, mas isso é contornado por um povo muito solicito sempre, disposto a ajudar e mostrar o caminho das pedras. Eu achei a cidade um pouco parada a noite, sem muitas opções para sair. Aqui vale também tomar muito cuidado com a altitude, Potosí está a mais de 4000m e conseguimos sentir isso facilmente caminhando pela rua. De forma geral achei a cidade segura, não escutei relatos de assaltos ou situações de violência, mais uma cidade da América do Sul que eu me sinto mais a vontade andando com meu celular do que em São Paulo.

Por enquanto é isso, acompanhem tudo no instagram: @demochila_nomundo e boas viagens.

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